terça-feira, 28 de agosto de 2012

Antonio Vieira 6

Assim, pois, como os trabalhadores hebreus - que eram os fiéis daquele tempo – no exercício dos seus lagares meditavam e cantavam o Saltério de Davi recopilado naqueles três salmos, porque não podiam todo, ao mesmo modo vós, quando não possais rezar todo o Rosário da Senhora, ao menos com parte das três partes em que ele se divide haveis de aliviar e santificar o peso do vosso trabalho na memória e louvores dos seus mistérios. E este foi finalmente o exemplo e exemplar que vos deixou Cristo nas três breves orações da sua Cruz. Porque, se bem advertirdes, em todas três, pela mesma ordem do Rosário, se contêm os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. Os gloriosos, na terceira, em que encomendou sua alma nas mãos do Padre, partindo-se deste mundo para a glória: Pater, in manus tuas commendo spiritum meum40. - Os dolorosos, na segunda, em que amorosamente queixoso publicou a altas vozes o excesso das suas dores: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me41? E os gozosos, rogando pelos mesmos que o estavam pregando na Cruz, e alegando que não sabiam o que faziam: Non enim sciunt quid faciunt42 - porque eles o crucificavam para o atormentarem, e ele se gozava muito de que o crucificassem, como declarou São Paulo: Proposito sibi gaudio, sustinuit crucem43.


VIII

Resta o último e excelente documento de São João, também nova e segunda vez nascido ao pé da cruz: e qual é este documento? Que entre todos os mistérios do Rosário haveis de ser mais particularmente devotos dos que são mais próprios do vosso estado, da vossa vida e da vossa fortuna, que são os mistérios dolorosos. A todos os mistérios dolorosos - e não assim aos outros - se achou presente São João. Assistiu ao do Horto com os dois discípulos; assistiu ao dos açoites com a Virgem Santíssima no Pretório de Pilatos; assistiu do mesmo modo e no mesmo lugar à coroação de espinhos; seguiu ao Senhor com a Cruz às costas até ao Monte Calvário; e no mesmo Calvário se não apartou do seu lado até expirar e ser levado à sepultura. Estes foram os mistérios próprios do Discípulo amado, que, como a dor se mede pelo amor, a ele competiam mais os dolorosos. Estes foram os seus, e estes devem ser os vossos, e não só por devoção ou eleição, nem só por condição e semelhança da vossa cruz, mas por direito hereditário, desde o primeiro etíope ou preto que conheceu a Cristo e se batizou. É caso muito digno de que o saibais.

Apareceu um anjo a São Felipe diácono, e disse-lhe que se fosse pôr na estrada de Gaza. Posto na estrada, tornou-lhe a aparecer, e disse-lhe que se chegasse a uma carroça que por ali passava. Chegou, e viu que ia na carroça um homem preto - que era criado da rainha de Etiópia - e ouviu que ia lendo pelo profeta Isaías. O lugar em que estava era aquele famoso texto do capítulo cinqüenta e três, em que o profeta descreve mais claramente que nenhum outro a Morte, Paixão e Paciência de Cristo: Tanquam ovis ad occisionem ductus est: et sicut agnus coram tondente se, sine voce, sic non aperuit os suum, etc44. - Perguntou-lhe o diácono se entendia o que estava lendo, e como respondesse que não, e lhe pedisse que lho declarasse, foi tal a declaração que, chegando depois ambos a um rio, o etíope pediu ao santo que o batizasse. E este foi o primeiro gentio depois de Cornélio Romano, e o primeiro preto cristão que houve no mundo. Tudo nesta história, que é dos Atos dos Apóstolos, referida por São Lucas, são mistérios. Mistério foi o primeiro aviso do anjo ao santo diácono, e mistério o segundo; mistério que um gentio fosse lendo pela Sagrada Escritura, e mistério que caminhando a fosse lendo; mistério que o profeta que lia fosse Isaías, e mistério sobre todos misterioso que o lugar fosse da Paixão e Paciência de Cristo, porque, para dar ocasião ao diácono de pregar a fé a um gentio, bastava que fosse qualquer outro. Pois, porque ordenou Deus que fosse sinaladamente aquele lugar, em que se descrevia a sua paixão e os tormentos com que havia de ser maltratado, e a paciência, sujeição e silêncio com que os havia de suportar? Sem dúvida porque neste primeiro etíope tão antecipadamente convertido se representavam todos os homens da sua cor e da sua nação que depois se converteram. Assim o dizem São Jerônimo e Santo Agostinho, e aprovam com texto de Davi: Aethiopia praeveniet manus ejus Deo45. E como a natureza gerou os pretos da mesma cor da sua fortuna: Infelix genus hominum, et ad servitutem natum46 - quis Deus que nascessem à fé debaixo do signo da sua Paixão e que ela, assim como lhes havia de ser o exemplo para a paciência, lhes fosse também o alívio para o trabalho. Enfim, que de todos os mistérios da Vida, Morte e Ressurreição de Cristo, os que pertencem por condição aos pretos, e como por herança, são os dolorosos.

Destes devem ser mais devotos, e nestes se devem mais exercitar, acompanhando a Cristo neles, como fez São João na sua Cruz. Mas, assim como entre todos os mistérios do Rosário estes são os que mais propriamente pertencem aos pretos, assim entre todos os pretos os que mais particularmente os devem imitar e meditar são os que servem e trabalham nos engenhos, pela semelhança e rigor do mesmo trabalho. Encarecendo o mesmo Redentor o muito que padeceu em sua sagrada Paixão, que são os mistérios dolorosos, compara as suas dores às penas do inferno: Dolores inferni circumdederunt me47. - E que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno. E, verdadeiramente, quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes; as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma, pelas duas bocas ou ventas por onde respiram o incêndio; os etíopes ou ciclopes banhados em suor, tão negros como robustos, que soministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras, ou lagos ferventes, com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando escumas, já exalando nuvens de vapores mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas nem de descanso; quem vir, enfim, toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno. Mas, se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do Rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso, o ruído em harmonia celestial, e os homens, posto que pretos, em anjos.

Grande texto de Davi. Estava vendo Davi essas mesmas fornalhas do inferno e essas mesmas caldeiras ferventes, e, profetizando literalmente dos que viu atados a elas, escreveu aquelas dificultosas palavras: Si dormiatis inter medios cleros, pennae columbae deargentatae, et posteriora dorsi ejus in pallore auri48. Cleros quer dizer lebetes, ou, como verte com maior propriedade Vatablo: Si dormiatis inter medias caldarias, vasaque plena fulligine. - Diz, pois, o profeta: - Se passardes as noites entre as caldeiras, e entre esses grandes vasos fuliginosos, e tisnados com e fumo e labaredas das fornalhas, que haveis de fazer, ou que vos há de suceder? - Agora entra o dificultoso das palavras: Pennae columbae por uma parte e douradas por outra. - E que tem que ver a pomba com o triste escravo e negro etíope, que entre todas as aves só é parecido ao corvo? Que tem que ver a prata e o ouro com o cobre da caldeira e o ferro da corrente a que está atado? Que tem que ver a liberdade de uma ave com penas e asas para voar com a prisão do que se não pode bolir dali por meses e anos, e talvez por toda a vida? Aqui vereis quais são os poderes e transformações que obra o Rosário nos que oram e meditam os mistérios dolorosos.

A pomba na Sagrada Escritura, como consta de infinitos lugares, não só é símbolo da oração e meditação absolutamente, senão dos que oram e meditam em casos dolorosos; por isso el-rei Ezequias nas suas dores dizia: Meditabor ut columba49. - E a razão desta propriedade, e semelhança é porque a pomba com os seus arrulhos não canta como as outras aves, mas geme. Quer dizer pois o profeta, e diz admiravelmente, falando convosco na mais miserável circunstância deste inferno da terra: Si dormiatis inter medias caldarias, vasaque plena fulligine - se não só de dia, mas de noite vos virdes atados a essas caldeiras com uma forte cadeia, que só vos deixe livres as mãos para o trabalho, e não os pés para dar um passo, nem por isso vos desconsoleis e desanimeis: orai e meditai os mistérios dolorosos, acompanhando a Cristo neles, como São João, e nessa triste servidão de miserável escravo tereis o que eu desejava sendo rei, quando dizia: Quis dabit mihi pennas sicut columbae, et volabo, et requiescam (SI. 54, 7): Oh! quem me dera asas como de pomba para voar e descansar? - E estas são as mesmas que eu vos prometo no meio desta miséria: Pennae columbae de argentatae, et posteriora ejus in pallore ouri - porque é tal a virtude dos mistérios dolorosos da Paixão de Cristo para os que orando os meditam gemendo como pomba, que o ferro se lhes converte em prata, o cobre em ouro, a prisão em liberdade, o trabalho em descanso, o inferno em paraíso, e os mesmos homens, posto que pretos, em anjos.

Dizei-me que coisa é um anjo? Os anjos não são outra coisa senão homens com asas, e esta figura não lha deram os pintores, senão o mesmo Deus, que assim os mostrou a Isaías e assim os mandou esculpir no Templo. Pois, essas são as asas prateadas e douradas com que desse vosso inferno vos viu Davi voar ao céu para cantar o Rosário no mesmo coro com os anjos. Nem vos meta em desconfiança a vossa cor nem as vossas fornalhas, porque na fornalha de Babilônia, onde o mestre da capela era Filho de Deus, no mesmo coro meteu as noites com os dias: Benedicite, noctes et dies, Domino50. Antes vos digo - e notai muito isto para vossa consolação - que se no céu não entraram vossas vozes com as dos anjos o Rosário que lá se canta não seria perfeito. Consta de muitas revelações e visões de santos que os anjos no céu também rezam ou cantam o Rosário, por sinal que ao nome de Maria fazem uma profunda inclinação, e ao nome de Jesus se ajoelham todos; e digo que, entrando vós no mesmo coro, será o Rosário dos anjos mais perfeito do que é sem vós, porque a perfeição do Rosário consiste em se conformar quem o reza com os mistérios que nele meditam, gozando-se com os gozosos, doendo-se com os dolorosos e gloriando-se com os gloriosos. E posto que os anjos nos gozosos se podem gozar, e nos gloriosos se podem gloriar, nos dolorosos não se podem doer, porque o seu estado é incapaz de dor. Isto, porém, que eles não podem fazer no céu, fazeis vós na terra, se no meio dos trabalhos que padeceis, vos doeis mais das penas de Cristo que das vossas. Assim que do Rosário dos anjos, e do vosso, ou repartidos em dois coros, ou unidos em um só, se inteira a perfeição, ou se aperfeiçoa a harmonia dos mistérios do Rosário.

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