Só resta mostrar-vos que este grande milagre, como dizia, é milagre do Rosário, e que esta eleição e diferença tão notável a deveis à Virgem Santíssima, vossa Mãe, e por ser Mãe vossa. Isac, filho de Abraão - de quem vossos antepassados tomaram por honra a divisa da circuncisão, que ainda conservam, e do qual muitos de vós descendeis por via de Ismael, meio-irmão do mesmo Isac - este Isac, digo, tinha dois filhos, um chamado Jacó, que levou a bênção do céu, e outro chamado Esaú, que perdeu a mesma bênção. Tudo isto sucedeu em um mesma dia, em que Esaú andava pelos matos armado de arco e frechas, como andam vossos pais por essas brenhas da Etiópia; e, pelo contrário, Jacó estava em casa de seu pai e de sua mãe, como vós hoje estais na casa de Deus e da Virgem Maria. E por que levou a bênção Jacó, e a perdeu Esaú? Porque concorreram para a felicidade de Jacó duas coisas, ou duas causas, que a Esaú faltaram ambas. A primeira foi porque Rebeca - que era o nome da mãe - não amava a Esaú, senão a Jacó, e fez grandes diligências, e empregou toda a sua indústria em que ele levasse a bênção. A segunda, porque, estando duvidoso o pai se lhe daria a bênção ou não, sentiu que os vestidos de Jacó lhe cheiravam a rosas e flores, e tanto que sentiu este cheiro e esta fragrância logo lhe deitou a bênção. Assim o nota expressamente o texto: Statimque ut sensit vestimentorum illius fragrantiam, benedicens illi, ait: Ecce odor filii mei, sicut odor agri pleni, cui benedixit Dominus. Det tibi Deus de rore caeli, etc.33 - Uma e outra circunstância, assim da parte da mãe como do pai, foram admiráveis, e por isso misteriosas. Da parte da mãe que, sendo Jacó e Esaú irmãos, amasse com tanta diferença a Jacó; e da parte do pai que um acidente que parecia tão leve, como o cheiro das flores, lhe tirasse toda a dúvida, e fosse o última motivo de lhe dar a bênção. Mas assim havia de ser, para que o mistério se cumprisse com toda a propriedade nas figuras e ações que o representavam. Isac significava a Deus, Rebeca a Virgem Mãe, Jacó os seus filhos escolhidos, que sois vós, e Esaú os reprovados, que são os que, sendo do vosso mesmo sangue e da vossa mesma cor, não alcançaram a bênção que vós alcançastes. Para que entendais que toda esta graça do céu a deveis referir a duas causas: a primeira, ao amor e piedade da Virgem Santíssima, vossa Mãe; a segunda, à devoção do seu Rosário, que é o cheiro das rosas e flores, que tanto enlevam e agradam a Deus.
Dos sacrifícios antigos, quando Deus os aceitava, diz a Sagrada Escritura que lhe agradava muito o cheiro e suavidade deles: Odoratus est Dominus odorem suavitatis34 - E a razão era porque naqueles sacrifícios se representavam os mistérios da vida e da morte de seu benditíssimo Filho. E como na devoção do Rosário se contém a memória e consideração dos mesmos mistérios, este é o cheiro e fragrância que tanto nele agrada, e tão aceito é a Deus. Em vós, antes de serdes cristãos, somente era futuro este cheiro das flores do Rosário, que hoje é presente, como também eram futuros naquele tempo os mistérios de Cristo; mas, assim como o merecimento destes mistérios antes de serem, somente porque haviam de ser davam eficácia àqueles sacrifícios, assim a vossa devoção do Rosário futura, e quando ainda não era, só porque Deus e sua Mãe a anteviram, com a aceitação e agrado que dela recebem, vos preferiram e antepuseram aos demais das vossas nações, e vos tiveram por dignos da bênção que hoje gozais, tanto maior e melhor que a de Jacó quanto vai da terra ao céu. Para que todos conheçais o motivo principal da vossa felicidade, e a obrigação em que ela vos tem posto de não faltar a Deus e a sua Santíssima Mãe com este quotidiano tributo da vossa devoção.
VII
Estou vendo, porém, que o vosso contínuo trabalho e exercício pode parecer ou servir de escusa ao descuido dos menos devotos. Direis que estais trabalhando de dia e de noite em um engenho, e que as tarefas multiplicadas umas sobre outras - que talvez entram e se penetram com os dias santos - vos não deixam tempo nem lugar para rezar o Rosário. Mas aqui entra o novo nascimento de Cristo, segunda vez nascido no Calvário, para com seu divino exemplo e imitação refutar a fraqueza desta vossa desculpa, e vos ensinar como no meio do maior trabalho vos não haveis de esquecer da devoção de sua Mãe, pois o é também vossa, oferecendo-lhe ao menos alguma parte, quando comodamente não possa ser toda. Davi - aquele santo rei, que também teve netos na Etiópia, filhos de seu filho Salomão e da rainha Sabá - entre os salmos que compôs, foram três particulares, aos quais deu por título Pro torcularibus, que em frase do Brasil quer dizer, para os engenhos. Este nome torcularia, universalmente tomado, significa todos aqueles lugares e instrumentos em que se espreme e tira o sumo dos frutos, como em Europa o vinho e o azeite, que lá se chamam lagares; e porque estes, em que no Brasil se faz o mesmo às canas doces, e se espreme, coze e endurece o sumo delas, têm maior e mais engenhosa fábrica se chamaram vulgarmente engenhos. Se perguntarmos, pois, qual foi o fim e intento de Davi em compor e intitular aqueles salmos nomeadamente para estas oficinas, respondem os doutores hebreus, e com eles Paulo Burgense, que o intento que teve o santo rei, e fez se praticasse em todo o povo de Israel, foi que os trabalhadores das mesmas oficinas ajuntassem o trabalho com a oração, e em lugar de outros cantares, com que se costumavam aliviar, cantassem hinos e salmos; e, pois, recolhiam e aproveitavam os frutos da terra, não fossem eles estéreis, e louvassem ao Criador que os dá. Notável exemplo por certo, e de suma edificação, que entre os grandes negócios e governo da monarquia tivesse um rei estes cuidados! E que confusão, pelo contrário, será para os que se chamam senhores de engenho, se atentos somente aos interesses temporais, que se adquirem com este desumano trabalho, dos trabalhadores seus escravos, e das almas daqueles miseráveis corpos, tiverem tão pouco cuidado, que não tratem de que louvem e sirvam a Deus, mas nem ainda de que o conheçam?
Tornando aos salmos compostos para os engenhos - que depois veremos por que foram três - declara Davi no título do último quem sejam os operários destas trabalhosas oficinas, e diz que são os filhos de Coré: Pro torcularibus fillis Core (SI. 83, 1). - Segundo a propriedade da história, já dissemos que os filhos de Coré são os pretos, filhos da Virgem Santíssima, e devotos do seu Rosário. Segundo a significação do nome, porque Coré na língua hebraica significa Calvário, diz Hugo Cardeal que são os imitadores da Cruz e Paixão de Cristo crucificado: Filiis Core, id est, imitatoribus in loco Calvariae crucifixi. - Não se pudera nem melhor nem mais altamente descrever que coisa é ser escravo em um engenho do Brasil. Não há trabalho nem gênero de vida no mundo mais parecido à Cruz e Paixão de Cristo que o vosso em um destes engenhos. O fortunati nimium sua si bona norint! Bem-aventurados vós, se soubéreis conhecer a fortuna do vosso estado, e, com a conformidade e imitação de tão alta e divina semelhança, aproveitar e santificar o trabalho!
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